14/07/13

PENSANDO...


 "Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

 Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!"


do REGRESSO AO LAR
de Guerra Junqueiro

Dei comigo pensando, não em voz alta, como muito gostaria, mas de forma silenciosa, com algum temor de que outros tempos estejam a ser revividos, quando crianças ingénuas nos via-mos a caminhar para a Escola, pés gretados pelo frio do Inverno ou queimados pela inclemência do sol, a sacola de sarja ou serapilheira, a 'pasta' de cartão comprada na Feira de Março, a maçã que a macieira à beira do caminho fez questão de derrubar, ou talvez fosse o vento, não sei... apenas sei que nada é como hoje, pois não é necessário apanhar a maçã do chão empoeirado, que limpamos no calção surrado pela poeira que agarra ao suor da caminhada! Não! Hoje há uma cantina na Escola, não são permitidas reguadas ou toques de ponteiro de madeira ou cana-da-Índia, há sapatos ou 'ténis' para todos... e até o 'Magalhães' nos vem mostrar como estava atrasado o ensino que nos calhou na rifa.
Mas os anos passam... e a saudade dos tempos de criança é enorme, pois até fui uma criança feliz no meio da pobreza então vivida.
Dou comigo a citar Guerra Junqueiro, que os jovens de hoje ignoram quem tenha sido, e aos meus lábios chegam as palavras ditas:
' Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?...há trinta?
Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...
.
Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...'
 
Guerra Junqueiro apenas se enganou num interveniente, pois não havia muitas hipóteses de as famílias de modestos recursos terem uma ama para os filhos, mas estes tinham na família quem os amava, quem lhes cantava cantigas de embalar... porque o amor dos pais era feito de carinho, coragem, força e muita fé no porvir, tal como o amor  fraterno era forte  como o aço, imperecível porque caldeado naquela poção mágica chamada FAMÍLIA.

 
Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,

.
De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.


Soneto
Sá de Miranda

Termino citando Sá de Miranda, porque ele dá conta de que terá de ser sempre o Homem, em todas as circunstâncias, a retirar os escolhos que lhe vão aparecendo nos caminhos da vida. Porque quem confia demasiado pode sentir o fogo ardendo no peito, mas as lágrimas desmentem a felicidade... ou talvez  não.
A vida é difícil... está difícil... não deixa que se aproveite na sua plenitude... mas são as coisas obtidas com sacrifício que reputamos de mais valiosas, porque são fruto do ACREDITAR! 

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